Gomas de cerejeira, ameixeira, pessegueiro e amendoeira
Algumas plantas do gênero Prunus, como as árvores da cereja, Prunus cerasus; da ameixa*, Prunus domestica; do pêssego, Prunus persica e da amêndoa**, Prunus amygdalus, todas elas plantas da família das Rosáceas, bem aclimadas e muito difundidas no Brasil, principalmente nos Estados do Sul, exsudam gomas que são usadas como aglutinantes de têmperas. As exsudações mais recentes são muito claras, quase incolores, e à medida que envelhecem tornam-se mais escuras, tendendo ao amarelado ou âmbar, e os fragmentos mais velhos dissolvem-se com maior dificuldade. Por essa razão, é aconselhável selecionar os fragmentos, preferindo os mais recentes, que são menos secos e mais claros, e também é importante que se faça a mais rigorosa limpeza possível, evitando e eliminando os fragmentos de cascas e outras sujeiras que eventualmente possam agregar-se às gotas de goma por ocasião da colheita.
Verte-se água bem quente sobre a goma e deixa-se em repouso por uma noite; estas gomas incham muito. Se as gotas de goma forem mais velhas e secas, podem exigir tanto tempo para dissolver-se que chegam a decompor-se, nesse caso o melhor é espremer a massa já formada (antes de deteriorar-se) em um pano, para separar a porção dissolvida do resto não dissolvido. Uma proporção adequada dessas gomas e água, é a de 100 gramas de goma para um litro de água; a solução deve ser coada em tela fina; Mayer afirma que a goma diluída pode ser secada ao sol em pratos de metal, vidro ou porcelana, raspando-se a goma seca que formará flocos, que deste modo podem ser preservados para uso posterior. Em solução aquosa é aconselhável adicionar algumas gotas de conservante.
Pode ser obtida nos pomares de casas e sítios; observe e anote todas as informações importantes sobre as épocas de ocorrência das exudações.
* Em algumas cidades interioranas da região sul do Brasil vulgarizou-se a denominação errônea de ameixa para a nêspera, que é dita como ameixa amarela. Trata-se no entanto de uma planta inteiramente diferente, que sequer produz goma, e não deve ser confundida com a Prunus domestica.
**Na região litorânea de Santa Catarina, principalmente nas áreas de influência da cultura dos descendentes açorianos, é denominada amendoeira, uma árvore nativa, frondosa e que dá frutos oleaginosos, que já foram usados para a saponaria e iluminação. Não deve ser confundida com a amendoeira Prunus amygdalus, que produz as variedades doces e amargas das amêndoas usadas em alimentação. Ainda nessa região, a mesma denominação às vezes é aplicada ao sombreiro ou baga-de-soldado.
Ceras
De origem animal, vegetal ou mineral, todas as ceras tem ponto de fusão abaixo do ponto de ebulição da água, e portanto podem e devem, por razões de segurança, ser fundidas em banho-maria. As diversas ceras são miscíveis entre si e com outras substâncias compatíveis, como óleos, gorduras animais e vegetais, resinas, bálsamos e óleos (comestíveis ou não) vegetais e animais e os óleos essenciais.
De largo emprego na arte, as ceras são usadas in natura, purificadas, diluídas, emulsionadas e/ou saponificadas, como aglutinante, como aditivos cumprindo função de estabilizante ou endurecedor, na composição de vernizes, como massas para restauro, como capas isolantes na gravura, como lubrificante na calagem de joalheria e outras tantas finalidades especializadas.
As ceras apresentam-se em estado sólido, nas condições normais de temperatura, e os pontos de fusão podem ser considerados baixos, aquém da ebulição da água, no entanto, é importante saber que há uma diferença entre o grau exato em que uma cera passa do estado sólido para o líquido, com o ponto que esta mesma cera passa do estado líquido para o sólido.
Em seguida à fusão, as ceras começam a desprender vapores muito inflamáveis, e por essa razão, não devem nunca ser fundidas à chama viva, mas em banho-maria; ademais, o fogo direto pode elevar em muito a temperatura, provocando a fritura e conseqüente carbonização das ceras, inviabilizando-as para o emprego, já que modificaria irreversivelmente suas características naturais.
Algumas ceras em especial tem emprego tradicional nos materiais artísticos, as quais são apresentadas a seguir:
Cera de abelhas
Dizer que a cera de abelhas é um material encantador parecerá menos exagerado se imaginar-mos o Homem nos albores de sua história, manipulando e experimentando com um material possível de ser moldado com facilidade, impermeável à água, combustível, facilmente fusível, agradável ao toque, miscível com óleos, gorduras animais e resinas vegetais, capaz de veicular diversas substâncias como fragmentos de plantas, partículas minerais, como calcários e areias, pós terrosos coloridos, carvões pulverizados e ainda aromas.
Suas aplicações são muitas e variadas. Na galênica, entra na composição de ungüentos e emplastros, foi e ainda é usada na fabricação de velas e é usado na impermeabilização e lustro de madeiras. Na arte, tem usos tradicionais, como na estamparia de tecidos, com a afamada técnica javanesa do Batik, e o fantástico método de fundição à cera-perdida – milenar método de fundição artística de metais, de uso na escultura e joalheria – que em essência, continua o mesmo a bem mais de quatro mil anos. Na Pintura, reconhecemos na encáustica a definitiva afirmação de todas as virtudes da cera, constituindo-se em um medium de estatura e direito próprios. Além de um medium propriamente dito a cera é de freqüente ocorrência na composição de alguns média, contribuindo como adjuvante.
A cera de abelhas é um material bem conhecido e de relativamente abundante ocorrência na natureza, já que é subproduto na produção de mel. É preciso certeza de que não está adulterada, mas a presença de determinadas impurezas, a forte cor amarela e o aroma de mel, são características próprias da cera.
Para uso como matéria-prima para o fabrico de medium de pintura, a cera de abelhas deve ser muito limpa, o que se consegue por decantação e filtragem. Já a descoloração, foi conseguida por vários métodos que remontam à antigüidade, e hoje o é por processos industriais. Se a necessidade é de cera branqueada para a confecção de material artístico profissional, esta deve ser comprada dos fornecedores especializados. No entanto, é possível experimentar processos artesanais, como os tratamentos da cera com ácido sulfúrico ou ainda com essência de terebintina ozonizada.
São vários os procedimentos e processos para a descoloração da cera de abelhas; em seguimento apresentamos alguns, e iniciamos pelas indicações de Doerner e Gettens & Stout, em tradução livre :
“Obtida com cuidado, derretida de favos de um ano, ainda não incubados, é de cor amarelo-claro, e não necessita descoloração alguma para empregar-se em pintura. A cera mais velha é amarelo-escura e deve ser derretida em água várias vezes, aspergindo-a várias vezes, depois de solidificada, com água com alúmem. Se se acrescenta essência de terebintina, descolora-se a cera, o que se consegue também, além disso, ao sol, na forma de folhas desgadas. A cera deve fundir-se em vasilhas bem estanhadas ou esmaltadas, pois nas de ferro, toma uma cor pardo suja. “(DOERNER, 1952 p 100)
“A indústria estende-se em várias partes do mundo, e, naturalmente, as ceras de amplo número de diferentes localidades variam consideravelmente em textura, cor, e em certa extensão, na composição química. As de cor clara são usadas diretamente em vários casos, mas as variedades de cor escura são freqüentemente alvejadas. Isto é feito pelo tratamento com terras alvejantes ou carvão, ou por meios químicos como uma simples exposição à luz e ao ar, ou pelo tratamento com ar ozonizado ou peróxido de hidrogênio; o uso de ácidos oxidantes como o ácido crômico tende a causar deterioração” (GETTENS & STOUT, 1966 p 5)
No processo de branqueamento da cera por ataque ácido das impurezas, a fase inicial deste, é o de depuração da cera, que se faz do seguinte modo: em uma panela de aço inoxidável ou outro recipiente apropriado necessariamente esmaltado (panela de ferro esmaltada ou de cerâmica, por exemplo), põe-se água até a metade e acrescenta-se a cera a ser depurada, de modo que o conteúdo do recipiente chegue até no máximo 15 centímetros da borda. Ferve-se por alguns minutos; retira-se do fogo, e revolvendo com uma espátula de madeira, derrama-se pouco a pouco e com cuidado, uma pequena quantidade de ácido sulfúrico (de 1 a 3 colheres). Por ação desse ácido ocorre uma efervescência que faz aumentar de volume o conteúdo do recipiente; por essa razão o ácido deve ser despejado aos poucos enquanto a cera deve ser revolvida ativamente. Quanto mais impura, mais aumenta o volume da cera.
Deixa-se repousar um pouco até solidificar-se a superfície; todas as impurezas atacadas pelo ácido sulfúrico precipitam-se no fundo do recipiente. Retira-se a cera com uma concha, sem revolver o fundo.
Funde-se de novo esta cera já depurada na proporção de metade de água, metade de cera e uma quarta parte de alúmen; por um coador ou crivo, derrama-se a cera fundida em água fria. Decantada esta água, recolhe-se a cera que deve ainda estar um pouco amarelada. Para completar seu branqueamento expõe-se ao sol os grânulos dispostos em tecido branco estendido sobre tábuas ou uma mesa, pulverizando-os com água limpa.
O processo de fusão e exposição ao sol deve repetir-se enquanto for necessário; a melhor forma da cera para a exposição ao sol é a de tiras ou escamas, e os horários devem ser controlados no verão para evitar sua fusão.
Outro processo de alvejar a cera é por ação da essência de terebintina, esta deve primeiro ser submetida a um tratamento especial, a ozonização, para se constituir em elemento descolorante eficaz. Para isso, põe-se a essência em uma bandeja larga e rasa, expondo-a durante bastante tempo aos raios solares; desta maneira, ela se espessa e absorve muito oxigênio. Nessas condições, tem um grande poder descolorante, branqueando além da cera, o marfim, osso e madeira. Para separar o excesso de essência de terebintina ozonizada dos corpos tratados, se os lava com álcool de 95º.
A cera de abelhas tem seu ponto de fusão entre 63º e 70º C, sua cor, situada entre o amarelo-claro e o castanho-escuro, depende da época, da região onde é retirada e do tipo de florada.
Além da cera de abelhas, empregam-se em arte, de modo geral, e nos materiais pictóricos em especial algumas outras ceras, naturais, de origem animal ou vegetal e artificiais.
A cera de abelhas pode ser encontrada com produtores rurais, em feiras; em casas de apicultura; com apicultores, e em lojas de ferragens.
Caseína
A caseína é produzida à partir do coalho de leite desnatado. Modernamente, é industrializada com critérios de controle e padronização, o que disponibiliza um produto confiável, encontrado no mercado especializado. Mayer nos informa que “as caseínas comerciais são produzidas por três processos e são conhecidas como caseínas auto-azedadas, ácidas e de coalho, sendo as duas primeiras bastante úteis para usos em adesivos ou aglutinantes de tintas. O material comercial comum é a caseína ácida, feita pela adição de ácido clorídrico ou às vezes ácido sulfúrico ao leite desnatado fresco”.(MAYER, 1996, p 472). A têmpera à caseína é um medium com lugar de mérito na pintura, mas esse aglutinante teve seu uso consagrado como cola no processo de imprimação.
É encontrada comercialmente como um pó levemente amarelado, cuja cor se acentua nos produto envelhecido, que então modificado, perde em muito sua capacidade adesiva e diminui a solubilidade.
Insolúvel em água em seu estado natural, no entanto em presença de álcalis, a caseína transforma-se em uma massa coloidal. As substâncias alcalinas adicionadas à água nas tintas comerciais para paredes são a soda cáustica ou a cal (hidróxido de sódio e hidróxido de cálcio), mas para uso em arte, como cola para imprimação e aglutinante para têmpera, só se usam os compostos de amônia, a água amoniacal e o carbonato de amônia. (MAYER, 1996, P 472). A caseína torna-se um adesivo de grande resistência quando misturada com uma substância alcalina.
Mayer, informa que para uso como aglutinante para tintas artísticas ou na imprimação não deve ser usado o caseinato de cal, mas que seja preparada uma emulsão com a caseína comercial tratada apenas com compostos de amônia, a água amoniacal e o carbonato de amônia. Prepara-se caseína para usos comuns (cola de usos gerais, aglutinantes para tintas de parede) amassando ricota feita de leite desnatado em uma moleta, e à ela adiciona-se a quinta parte de cal extinta (apagada), depois do que se revolve até a emulsificação, está pronto o caseinato de cal. Dilue-se com 2 a 3 partes de água. (DORNER, 1950 p 123)
Confecção do carvão
A carbonização de madeiras é resultado de uma queima incompleta, porque é feita em ambiente escasso de oxigênio. Para obter os bastões de carvão, usava-se na antigüidade calcina-los em potes cerâmicos hermeticamente tapados, na Ásia, envolvia-se os ramos em argila e se os queimava em fornos.
Atualmente são produzidos industrialmente em fornos com ausência de ar e controle de tempo e temperatura.
Podemos usar o processo dos potes de cerâmica, mas torna-se mais simples e barato aproveitar-se latas usadas.
Os bastões de carvão para desenho são feitos de ramos de determinadas plantas, que tenham as características apropriadas. A experiência indica algumas plantas como preferenciais, pela qualidade do produto final, e a que goza de maior prestígio é a videira, seguida do salgueiro (salso-chorão, chorão).
Outras plantas são ou podem ser experimentadas, como a roseira, o vime, a goiabeira e a laranjeira.
1. Colha ramos da espessura aproximada de um pouco mais de um lápis, o mais retos possível, que sejam firmes por não serem ramos novos.
2. Descasque-os, raspando com uma faca, canivete ou vidro. Corte em pedaços de aproximadamente quinze centímetros. Deixe secar completamente à sombra.
3. Escolha duas latas com tampa, do tipo de leite em pó (apenas as que tem tampa metálica), uma maior, e outra menor que caiba naquela. Perfure com um prego apenas a tampa da lata maior. Perfure apenas o corpo da lata menor.
4. Acondicione os bastões em pé dentro da lata menor, tampe-a. Ponha a lata menor dentro da maior e tampe-a.
5. A queima deve ser feita ao ar livre ou ao menos em ambiente em que a fumaça não se constitua em transtorno; um pequeno fogo de lenha é perfeito. Pode-se levar à chama de um fogareiro ou até de um fogão a gás, desde que estes estejam ao ar livre.
6. À medida que se carbonizam, os ramos desprendem muita fumaça, que no início é densa e escura mas que vai diminuindo e clareando. O indicativo de que os ramos estão completamente carbonizados é quando não se desprende mais nenhuma fumaça (percebe-se apenas o ar aquecido saindo pelos furos).
7. Retire do fogo, cubra a tampa perfurada com um tijolo ou tábua e deixe esfriar pelo menos meia hora, só então pode abrir as latas e retirar os carvões. Acondicione-os em caixinhas de papelão ou plástico.